Ardência


Perder o tino e a noção da hora sempre me pareceu não passar de mérito conquistado por casais recém-apaixonados. Aqueles que ainda acreditam que vão manter a medalha de honra no pescoço sem fazer muito esforço - além do balançar dos quadris.

Mas, você está certa. Não acredite em conclusões contorcidas pela mente de uma mulher que acabou de ser deixada feito adolescente, com o pau duro de plantão. Por aqui não há moral de filosofar sobre as cores do amor ou do sexo. Ainda mais com o palpite certeiro na ponta da língua, capaz de apostar uma rodada de sexo oral que nem a cor dos meus olhos você se lembra mais.

Numa noite quente como essa eu desejo mesmo é que os casais felizes se fodam. Que eu tenha tempo de deixar a “geladeira cheia e sem promessas”, antes de ir pular o carnaval no ritmo da minha chama – que, por sua vez, me arde.

Já estou farta de pedir pra ficar alguém que vive indo embora. Não se iluda com a sensação razoável de que na hora certa a gente fica. Tem certo par de pernas torneadas que agonizam só de tentar entender tanto ir e vir. O lance mesmo é andar, correr, se mover.

No entanto, se tiver mesmo que esperar, a gente espera. Só me diz uma coisa: enquanto não chega, o quê que a gente faz com a festa da carne que está bombando por dentro? Joga água fria e perde o melhor da balada?

Meu Bem, te cuida. Minhas medalhas estão penduradas há tempos e eu continuo sem fazer muito esforço. Desacreditada do mérito e desesperada pelo balançar dos quadris.

Da série: Interpretações




Enquanto você oferece beijos pelos meus pensamentos e me pergunta onde estou, eu abro os olhos devagar.
No reflexo da retina eu lhe digo que eu me desesperava. Para tudo.
Vez ou outra eu poderia dizer que era um desespero positivo. Uma vontade. De tudo. Boa vontade. Disposição. Ansiedade.
Não, esquece. Ansiedade não é bom. Mas, não deixa de ser um desespero.
Vai e vem, eu também posso dizer que esse desespero é só uma esperança que bate de novo. Ou é o verão chegando mais cedo pra mim. Coisa de pisciana, né? Aí você vai dizer que esse desespero faz parte da vontade. Tesão é vontade... desesperadora.
Por muitas vezes vou ficar desesperada de medo. Matar aquele que faz parte da vontade, cortar o clima e deixar de ir por medo do desconhecido.
Mulher de porre também pode ser sinônimo de desesperada. E esse desespero é ciumento, possessivo, intenso. É meio que febre. Charme que a gente usa pra conseguir des-esperar.
A verdade é que um dia, ou outros mais - além das noites -, eu vou ceder um pensamento por um beijo. Aí você descobre o que é esse desespero. Quem sabe até eu descubra. Talvez.

Fugas

É esse nó na garganta que não sara. O motivo de minha ausência de tudo. Tudo.
São esses sapos que me escorregam e não saem.
As borboletas no estômago se foram. Ficaram os sapos e as náuseas.
Sem dúvida eu repito que o erro foi meu. De não dizer e me entregar. Sempre mais.
Sem me dar conta, fechei as portas e as janelas e me concentrei naquele quadro. E assim, permaneço.
Hipnotizada por verdades que sequer são minhas. Desorientada por inverdades camufladas.
E apaixonada. Triste. Excitada.
Enfim, entregue.
E eu que há dias venho curtindo sem acreditar. Fico de frente com o fato, evitando até o último momento, lhe encarar.

Bilhetes ligeiros


06 de Setembro de 2011

Com sua gentileza, vou falar.

Queira dar-me preciosa atenção.

Gata,

Saravá! Coisa ruim! Esse estalo que começa como um nó na garganta e vai pousar entre as juntas dos dedos, travando qualquer escrita. Como é difícil dizer isso. Como foi difícil digitar tudo. E a garganta, ó, pulando. Vontade de gritar.

Mas, meu desejo tem mais força. Aqueles últimos embalos que te fazem ir um pouco mais além. Catando teclas, colhendo vestígios do último berro. Talvez venha do gozo, sei lá – ainda não perdi o costume de provocar. Mais ou menos isso. Ai! Travou de novo, será que é?

Eu sinto apenas que tenho gás. E quero mais. Sempre mais. Os caminhos são variados, não se engane. Cautela. Contudo, aguenta aí que eu tô chegando. Que num minuto eu me destravo. E no abraço, o nó na garganta vai pousar mais embaixo.

Até breve.

Cheiro.

Att,
Amo-te.

PS: pode atender o telefone agora.




Só sei que olho, num sei se vejo. Traços, trajetos, trejeitos, num sei se arrisco. Mas, olho.
Eu quero mesmo é olhar na minha janela e ver a praia. Sei lá. Área de respiro.
Gosto de cor, muita cor. De testemunhar exposições artísticas e corporais pelas ruas. Mas não gosto de me expor. Talvez eu deixe de enxergar. Quem sabe de respirar.
Afinal, estou no meio de um turbilhão de sensações e acabei de me diagnosticar uma sinestésica.
E aí lá me foi também o tato. Não posso mais comer sozinha nem folhear páginas em preto e branco. E se eu soprar a poeira das poesias lá me vai também o olfato.
Num sei se pego, só sei que sinto o gosto. Aí eu sei também que vejo. Só de olhar dá pra sentir o gosto. Ver as formas e as cores aguça ainda mais o paladar. E com o paladar à flor da pele eu posso ouvir uma melodia consistente ao fundo. Que também tem cores e sabores macios.
De alguma forma, eu sinto.

"O melhor está nas entrelinhas"




E Deus é uma criação monstruosa. Eu tenho medo de Deus porque ele é total demais para o meu tamanho. E também tenho uma espécie de pudor em relação a Ele:
há coisas minhas que ele sabe. Medo? Conheço um ela que se apavora com borboletas como se estas fossem sobrenaturais. E a parte divina das borboletas é mesmo de dar terror. E conheço um ele que se arrepia todo de horror diante de flores - acha que as flores são assombradamente delicadas como um suspiro de ninguém no escuro.
Eu é que estou escutando o assobio no escuro. Eu que sou doente da condição humana. Eu me revolto: não quero mais ser gente. Quem? quem tem misericórdia de nós que sabemos sobre a vida e a morte quando um animal que eu profundamente invejo - é inconsciente de sua condição? Quem tem piedade de nós? Somos uns abandonados? uns entregues ao desespero? Não, tem que haver um consolo possível. Juro: tem que haver. Eu não tenho é coragem de dizer a verdade que nós sabemos. Há palavras proibidas.
Mas eu denuncio. Denuncio nossa fraqueza, denuncio o horror alucinante de morrer - e respondo a toda essa infâmia com - exatamente isto que vai agora ficar escrito - e respondo a toda essa infâmia com a alegria. Puríssima e levíssima alegria. A minha única salvação é a alegria. Uma alegria atonal dentro do it essencial. Não faz sentido? Pois tem que fazer. Porque é cruel demais saber que a vida é única e que não temos como garantia senão a fé em trevas - porque é cruel demais, então respondo com a pureza de uma alegria indomável. recuso-me a ficar triste. Sejamos alegres. Quem não tiver medo de ficar alegre e experimentar uma só vez sequer a alegria doida e profunda terá o melhor de nossa verdade. Eu estou - apesar de tudo oh apesar de tudo - estou sendo alegre neste instante-já que passa se eu não fixá-lo com palavras. Estou sendo alegre neste mesmo instante porque me recuso a ser vencida: entao eu amo. Como resposta. Amor impessoal, amor it, é alegria> mesmo o amor que não dá certo, mesmo o amor que termina. E a minha própria morte e a dos que amamos tem que ser alegre, não sei ainda como, mas tem que ser. Viver é isto: a alegria do it. E conformar-me não como vencida mas num allegro com brio.
Aliás não quero morrer. Recuso-me contra "Deus". Vamos não morrer como desafio?
Não vou morrer, ouviu, Deus? Não tenho coragem, ouviu? Não me mate, ouviu? Porque é uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde. Vou ficar muito alegre, ouviu? Como resposta, como insulto. Uma coisa eu garanto: nós não somos culpados. E preciso entender enquanto estou viva, ouviu? porque depois será tarde demais.
Ah este flash de instantes nunca termina. Meu canto do it nunca termina? Vou acabá-lo deliberadamente por um ato voluntário. Mas ele continua em improviso constante, criando sempre e sempre o presente que é futuro.
Este improviso é.
Quer ver como continua? Esta noite - é difícil te explicar - esta noite sonhei que estava sonhando. Será que depois da morte é assim? o sonho de um sonho de um sonho de um sonho?
Sou herege. Não, não é verdade. Ou sou? Mas algo existe.
Ah viver é tão desconfortável. Tudo aperta: o corpo exige, o espírito não pára, viver parece ter sono e não poder dormir - viver é incômodo. Não se pode andar nu nem de corpo nem de espírito.
Eu não te disse que viver é apertado? Pois fui dormir e sonhei que te escrevia um largo majestoso e era mais verdade ainda do que te escrevo: era sem medo. Esqueci-me do que no sonho escrevi, tudo voltou para o nada, voltou para a força do que Existe e que se chama às vezes Deus.
Tudo acaba mas o que te escrevo continua. O que é bom, muito bom. O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas.
Hoje é sábado e é feito do mais puro ar, apenas ar.
Falo-te como exercício profundo, e pinto como exercício profundo de mim. O que quero agorar escrever? Quero alguma coisa tranquila e sem modas. Alguma coisa como a lembrança de um monumento alto que parece mais alto porque é lembrança. Mas quero de passagem ter realmente tocado no monumento. Vou parar porque é sábado.
Continua sábado.
Aquilo que ainda vai ser depois - é agora. Agora é o domínio de agora. E enquanto dura a improvisação eu nasço.
E eis que depois de uma tarde de "quem sou eu" e de acordar à uma hora da madrugada ainda em desespero - eis que às três horas da madrugada acordei e me encontrei. Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulminação. Simplesmente eu sou eu. E você é você. É vasto, vai durar.
O que te escrevo é um "isto". Não vai parar : continua.
Olha pra mim e me ama. Não: tu olhas pra ti e te amas. É o que está certo.
O que te escrevo continua e estou enfeitiçada.

Água viva - Clarice Lispector.

planos pra viver



É um sentimento até calmo. Mas, é uma questão constante. A procura inevitável pelo eixo, pelo ponto central, pelo foco. Não sei bem. Eu só queria te ouvir em devaneios. Sóbrios ou não, tanto faz. Eu só queria te ouvir. Eu só queria falar qualquer coisa que fosse o suficiente para segurar sua atenção. Falar para você. Ver-te escondendo num sorriso silencioso a verdadeira sensação que a besteira que eu tenha dito lhe despertaste.

Penso no começo e nos motivos. Procuro novamente o foco. Meus planos e meus motivos se misturam e continuo apenas seguindo suas viagens momentâneas. Retomando metas, traçando estratégias, consigo até lembrar que um dos meus planos era apenas sonhar. E agora já até duvido que o eixo exista.

É verdade que os seus motivos ou interesses eu nunca quis saber. Os faço por você. Sonhe comigo, não tente evitar. Culpe o destino por desmarcar seus compromissos e me permita calcular sua rota de fuga. E mesmo que não tenha acontecido sem querer e que nenhum sentido nisso tudo esteja claro, não tente nos convencer que é um engano sentir e viver.